Lispectiando
"Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. (...) Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade."
(A Paixão Segundo G.H. p.15)
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Uma mulher planeja fazer uma arrumação no quarto de sua empregada, que acabara de deixar o emprego. Ao entrar no quarto, depara-se com uma barata. Com repugnância, ela esmaga o inseto contra a porta do guarda-roupas. Em seguida, tomada por um impulso irrefreável de compaixão, ela se sente tentada a provar a “massa branca e neutra” de que é feita a barata agonizante.
Ao longo de todo o texto, a personagem título pede a “um alguém” que lhe dê a mão para que ela possa continuar sua busca, caso contrário não teria força ou coragem para prosseguir. Talvez estivesse chamando seus leitores, pedindo que fossem a companhia de que precisava para descobrir-se. Por outro lado, talvez Clarice estivesse chamando pela “outra metade” de si própria, a metade cotidiana e “terrestre”, como se implorasse para que esta não a deixasse perder-se para sempre naquela experiência divina e super-humana.
Por meio de sua obra, Clarice escreve e cria a si mesma, e é da tensão entre a Clarice-autora e a Clarice-personagem que se constrói o inesgotável material dramático e real de seus textos. E ao final de A Paixão Segundo G.H. pairava no ar a pergunta sem resposta, ecoando também na vida de Clarice Lispector:
“O que é que me havia chamado: a loucura ou a realidade? (...) Perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. (...) Mas como faço agora? (...) Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir.”
(A Paixão Segundo G.H. p.15)
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Uma mulher planeja fazer uma arrumação no quarto de sua empregada, que acabara de deixar o emprego. Ao entrar no quarto, depara-se com uma barata. Com repugnância, ela esmaga o inseto contra a porta do guarda-roupas. Em seguida, tomada por um impulso irrefreável de compaixão, ela se sente tentada a provar a “massa branca e neutra” de que é feita a barata agonizante.
Ao longo de todo o texto, a personagem título pede a “um alguém” que lhe dê a mão para que ela possa continuar sua busca, caso contrário não teria força ou coragem para prosseguir. Talvez estivesse chamando seus leitores, pedindo que fossem a companhia de que precisava para descobrir-se. Por outro lado, talvez Clarice estivesse chamando pela “outra metade” de si própria, a metade cotidiana e “terrestre”, como se implorasse para que esta não a deixasse perder-se para sempre naquela experiência divina e super-humana.
Por meio de sua obra, Clarice escreve e cria a si mesma, e é da tensão entre a Clarice-autora e a Clarice-personagem que se constrói o inesgotável material dramático e real de seus textos. E ao final de A Paixão Segundo G.H. pairava no ar a pergunta sem resposta, ecoando também na vida de Clarice Lispector:
“O que é que me havia chamado: a loucura ou a realidade? (...) Perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. (...) Mas como faço agora? (...) Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir.”

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